Sobre a Cris
Ana Cristina Batista
Professora | Escritora | Palestrante
Uma após a outra, cada versão preparando o caminho para a seguinte e ambas
coexistindo ao mesmo tempo, todas unidas em um propósito...
Educar, ressignificar e alicerçar a realidade das raízes negras que nos originou e foram negadas através do tempo e ocultas da história escrita.

A Professora
O desafio de educar me esperança e me fez resistir...
Sempre sonhei em ser professora, mas não tive alguém que me orientasse ou me conduzisse pelo caminho do magistério. Ainda assim, o desejo de me formar e atuar na educação permaneceu vivo dentro de mim. Somente aos 28 anos de idade o destino me levou, de fato, para a área educacional. Fui aluna da última turma do Magistério Normal da E.E. Keizo Ishihara, formando-me no ano de 2002. Eu tinha pressa, pois já estava chegando aos 30 anos e desejava iniciar minha trajetória profissional o quanto antes. Assim, no dia 06 de fevereiro de 2002, iniciei minha atuação no magistério como professora eventual na E.E. Prof. Adolfino Arruda Castanho, minha primeira experiência na área da educação. Em 2003, lecionei na E.E. Prof. Emydio de Barros, atuando em caráter de substituição no Ensino Fundamental II. No ano de 2004, ingressei como professora adjunta no município de Osasco e, no mesmo período, também assumi como professora adjunta no município de Cotia. Permaneci em Cotia até 2007, quando solicitei exoneração para assumir novamente em Osasco, desta vez como professora titular, deixando então o cargo de professora adjunta. Atuei como professora titular em Osasco até fevereiro de 2016, acumulando funções também no município de Cotia. Nesse período, passei a atuar na Creche da Universidade de São Paulo como Educadora de Creche, permanecendo simultaneamente em Osasco como professora titular. No entanto, não me adaptei à função de auxiliar de creche e, posteriormente, retornei ao município de Cotia como professora titular, onde permaneço até os dias atuais. Durante essa trajetória, solicitei exoneração do município de Osasco, dedicando-me exclusivamente à rede de Cotia. Ao longo desses anos, também exerci funções de gestão educacional, atuando como Professora Coordenadora, Vice-Diretora e respondendo pela direção escolar. Após experiências frustrantes na área administrativa das instituições de ensino, decidi retornar à sala de aula, espaço no qual sempre reconheci minha verdadeira vocação. Posteriormente, ingressei no município de São Paulo como PEIF, função que exerço até a presente data no Projeto PAP — um projeto voltado ao atendimento de estudantes que apresentam defasagem de aprendizagem. Atualmente, somo 24 anos de dedicação ao magistério público estadual e municipal, construindo uma trajetória marcada pelo compromisso com a educação, pela superação e pela constante busca em transformar vidas por meio do ensino. Minha trajetória na educação é tão grande quanto os desafios que enfrentei ao longo desses 24 anos. Nem sempre me enxergaram como professora. Quando iniciei minha caminhada no magistério, atuava como professora eventual e ministrava aulas para diferentes anos escolares. Eu nunca sabia quem iria substituir no dia seguinte. Por isso, andava sempre carregando muitos cadernos, livros e materiais pedagógicos. Não tinha carro e percorria diferentes unidades escolares do município, sem ter uma sede específica. Quantas vezes fui confundida com mãe de aluno ou alguém da comunidade escolar. Quando imaginavam que eu era funcionária da escola, raramente pensavam na possibilidade de eu ser a professora. Hoje compreendo muitas dessas situações sob uma perspectiva racial, mas naquela época eu ainda não possuía o letramento racial que tenho atualmente. Eu apenas sentia os impactos silenciosos dessas diferenças. Na sala dos professores, nem sempre foi fácil construir vínculos. Em diversas ocasiões, cheguei à escola, recebi orientações breves e fui encaminhada diretamente para a sala de aula, sem uma apresentação mais ampla à equipe. Com o tempo, percebi que outras professoras recém-chegadas costumavam ser acolhidas de forma mais formal e tinham maiores oportunidades de interação inicial. Na época, eu não compreendia plenamente essas diferenças. Foi por meio do letramento racial que passei a refletir sobre como o racismo estrutural pode se manifestar de maneira implícita no cotidiano, influenciando quem é mais prontamente reconhecido, acolhido e percebido como pertencente a determinados espaços. Essas experiências me ajudaram a compreender que, muitas vezes, as desigualdades raciais não se expressam em atitudes explícitas, mas em práticas sutis que afetam os processos de inclusão e reconhecimento profissional. Mas mesmo diante disso, permaneci. Combati o bom combate acreditando profundamente na transformação social por meio da educação. Foi meu trabalho incansável, comprometido e dedicado que me deu a visibilidade necessária para permanecer firme até os dias de hoje. Enquanto muitas vezes meu próprio coletivo me subjugava, os pais me acolhiam, os alunos me admiravam e meu trabalho se destacava. Talvez isso explique o motivo de eu ter prestado tantos concursos. Durante muito tempo pensei que o tratamento diferente acontecia apenas porque eu era professora eventual. Depois fui concursada, professora adjunta, posteriormente professora titular, mas percebi que nenhuma dessas conquistas garantia, de fato, uma caminhada em igualdade dentro do espaço escolar. A sala dos professores, muitas vezes, foi um lugar em que eu não conseguia me sentir pertencente. Nas reuniões pedagógicas, quantas vezes fui mal compreendida justamente por defender alunos e suas necessidades. Diante disso, fui construindo meus vínculos com aqueles que também sustentavam a escola diariamente: inspetores, cozinheiras, profissionais da limpeza e funcionários do apoio. Com eles, eu me sentia acolhida e feliz. Ao olhar para trás, percebo que não tive ao longo desses 24 anos um grupo com quem compartilhasse confraternizações fora da escola, encontros nas férias ou momentos de convivência além do ambiente profissional. Esse grupo nunca existiu para mim e, de certa forma, ainda não existe. Hoje compreendo que esse distanciamento também esteve relacionado ao destaque que meu trabalho conquistou ao longo da minha trajetória. Minha prática pedagógica sempre foi marcada pelo compromisso com uma educação antirracista e pelo letramento racial, desenvolvendo projetos relevantes junto aos alunos, muitos deles reconhecidos por meio de premiações e homenagens. Atualmente, sinto que conquistei meu espaço. Aprendi a me fortalecer diante dos olhares, dos silêncios e dos descasos. Compreendi que a forma como muitas pessoas me tratou nunca definiu quem eu sou. Meu trabalho continua sendo realizado com qualidade, sensibilidade e compromisso. Meu olhar para os alunos permanece humano e atento, reconhecendo as potencialidades de cada um deles em suas diferentes habilidades e formas de existir. Sou profundamente grata à educação, porque tudo o que construí na minha vida veio dela. E mesmo diante de tantas dificuldades, sigo acreditando que educar é um ato de transformação, resistência e esperança. Foi justamente desse trabalho potente com projetos, dessas escutas sensíveis e das vivências construídas dentro da escola que começou a nascer algo novo dentro de mim: a escritora. Aos poucos, percebi que algumas histórias precisavam ultrapassar os muros da sala de aula. Histórias de dor, resistência, pertencimento e transformação não podiam permanecer apenas na memória daqueles que as viveram. Elas precisavam ganhar voz, registro e permanência. E assim, entre práticas pedagógicos, projetos escolares e experiências humanas profundas, nasceu minha escrita, uma escrita comprometida com a educação, com a valorização da identidade negra e com a esperança de transformar vidas também por meio da literatura.

A Escritora
Da Sala de Aula Para as Páginas de livros, assim nasce uma escritora.
Minha trajetória como escritora nasceu dentro da sala de aula, por meio da prática pedagógica e do desenvolvimento de projetos educacionais. Sempre compreendi que trabalhar com projetos exige pesquisa, aprofundamento e disposição para aprender constantemente. Como dizia Paulo Freire, “quem ensina aprende ao ensinar”, e foi justamente nesse movimento entre ensinar e aprender que meu processo de criação literária começou a florescer. Foi durante o desenvolvimento de um projeto em sala de aula que surgiu “Sementes da África: Desconstruindo, Ressignificando e Reconstruindo a História do Brasil”. O projeto nasceu da necessidade de apresentar aos alunos uma outra perspectiva sobre a história do Brasil: não mais sob o olhar dos dominadores, mas a partir da ótica dos construtores dessa nação. A proposta era recontar a história valorizando o legado africano e as contribuições dos povos africanos para a formação cultural, social e econômica do Brasil. Uma história que não começasse nos navios negreiros, mas na África — território de riqueza cultural, tecnológica e intelectual. Busquei apresentar aos alunos os conhecimentos que os povos africanos já dominavam na mineração, agricultura, comércio e organização social, evidenciando que a escravização foi também uma captura estratégica de saberes e competências humanas. Ao lado das contribuições indígenas e europeias, esse legado africano ajudou a construir aquilo que somos enquanto povo e cultura brasileira. Sempre acreditei que compreender essa formação miscigenada é também compreender que não há espaço para o preconceito e o racismo, pois somos fruto do encontro de muitos povos, histórias e heranças. Durante o projeto, muitos alunos relatavam nunca terem conhecido a história do Brasil sob essa perspectiva positiva e humanizada da população negra. Foi nesse momento que nasceu a ideia de transformar o projeto em livro. Assim surgiu minha primeira obra, intitulada “Sementes da África”. O livro foi totalmente custeado por mim e sua divulgação aconteceu de maneira simples e afetiva, no boca a boca, leitor por leitor. Ainda assim, a obra alcançou um resultado muito significativo, ultrapassando a marca de 400 exemplares vendidos. A recepção positiva e as críticas construtivas fortaleceram ainda mais minha certeza de que a literatura também pode ser uma ferramenta de transformação social. Impulsionada por essa experiência, decidi escrever minha segunda obra. Desta vez, porém, o livro não nasceu de um projeto pedagógico, mas de uma vivência profundamente marcante dentro da escola. Entre meus alunos havia um menino que sofria racismo. Ele utilizava constantemente uma blusa de frio com capuz, numa tentativa silenciosa de esconder sua própria cor. Durante uma aula sobre educação antirracista, ele me confidenciou que não gostava de ser preto, pois sofria racismo. Diante daquela dor, iniciei um trabalho individual de fortalecimento da autoestima do aluno, ao mesmo tempo em que intensifiquei as discussões sobre identidade, pertencimento e valorização da cultura negra em sala de aula. Aos poucos, aquele menino foi se fortalecendo emocionalmente, recuperando sua autoestima e libertando-se da necessidade de se esconder atrás da blusa de frio. Dessa experiência nasceu minha segunda obra: “O Menino e o Sol: Uma História de Cor e Calor”. Um livro construído a partir da escuta, da sensibilidade e da crença de que a educação pode transformar vidas. Minhas obras abriram caminhos para palestras, formações e encontros voltados à educação antirracista, ao letramento racial e à valorização da identidade negra. Mas essa já é uma outra parte da minha história que vale a pena ser contada mas em outro momento.

A Palestrante
Militar é usar a Palavra Como Ferramenta de Transformação
Após a publicação das minhas duas obras literárias infantojuvenis, “Sementes da África” e “O Menino e o Sol: Uma História de Cor e Calor”, novas portas começaram a se abrir em minha trajetória profissional. Inicialmente, os convites surgiam para que eu apresentasse os livros, falasse sobre suas temáticas e compartilhasse o processo de criação de cada obra. No entanto, percebi que aqueles encontros também se transformavam em espaços potentes de diálogo sobre educação antirracista, identidade, pertencimento e transformação social. Ao apresentar “Sementes da África”, costumo refletir sobre a necessidade de recontarmos a história do Brasil a partir de outras perspectivas, valorizando os povos africanos como construtores da nossa sociedade e não apenas como sujeitos escravizados. Falo sobre a importância de as crianças pretas conhecerem suas origens a partir de um legado de potência, inteligência, força e resistência. Acredito profundamente que a maneira como contamos a história interfere diretamente na construção da autoestima e da identidade das crianças. Quando compartilho a experiência que deu origem à obra “O Menino e o Sol”, costumo dizer que aquele aluno só conseguiu se abrir comigo porque encontrou, dentro da escola, um espaço de acolhimento e uma prática educativa comprometida com o combate ao racismo. Se não houvesse um trabalho contínuo de valorização da identidade negra, de representatividade positiva e de desconstrução de estereótipos, talvez aquele menino nunca tivesse encontrado coragem para revelar sua dor. Para mim, esse é o verdadeiro sentido da Lei 10.639/08: construir diariamente uma educação antirracista dentro do currículo escolar e não apenas em datas comemorativas. Infelizmente, ainda percebo que muitas escolas não realizam esse trabalho de forma contínua e estruturada. Foi justamente a partir dessas reflexões, das minhas vivências e da forma como eu conduzia essas falas que as pessoas começaram a me enxergar também como palestrante. Minha trajetória nesse campo surgiu de maneira muito natural, sem planejamento prévio. Uma fala foi alcançando outra pessoa, um trabalho foi puxando o outro e, aos poucos, meu nome começou a circular em diferentes espaços educacionais. A professora Celina, coordenadora da Escola Perimetral, em São Paulo, foi a primeira profissional da educação a me convidar para palestrar fora do contexto do 20 de Novembro. Esse convite teve um significado muito especial para mim, porque demonstrava que a discussão sobre educação antirracista precisava ocupar todos os tempos e espaços da escola, e não apenas datas específicas. Na ocasião, realizei uma palestra para alunos do ensino fundamental I , professores e estudantes da EJA. Foi um momento extremamente marcante, pois percebi o quanto as pessoas se identificavam com minha fala. Muitos se reconheciam nas experiências compartilhadas e compreendiam que o racismo estrutural atravessa silenciosamente o cotidiano escolar. Minha fala sempre foi acessível, simples e afetiva, mas sem perder a profundidade e a criticidade necessárias. Depois dessa experiência, novas oportunidades começaram a surgir. Uma professora que participou daquela palestra comentou sobre meu trabalho em outra escola da rede estadual, o que resultou em um novo convite. Posteriormente, participei de uma Feira Afro no CEU Uirapuru, onde ministrei uma palestra sobre práticas antirracistas na educação. Foi nesse evento que conheci a professora Edlaine, que até então eu não conhecia pessoalmente. Após assistir minha palestra, ela se aproximou, me parabenizou e pediu meu contato. Tempos depois, ela compartilhou meu trabalho com o professor Moacir, doutor em Educação e integrante do Instituto Federal de São Paulo, polo de São Roque. Quando nos conhecemos, ele demonstrou grande admiração pela minha trajetória e atuação pedagógica, definindo-me como uma “intelectual orgânica”. Essa fala me marcou profundamente, porque minha construção enquanto educadora, escritora e palestrante sempre aconteceu a partir da prática, da vivência e da escuta cotidiana dentro da escola pública. Hoje compreendo que tanto minha atuação como escritora quanto como palestrante nunca foram objetivos planejados previamente. Ambos os caminhos nasceram de forma orgânica, como consequência natural do meu compromisso com a educação e com a transformação social. Uma experiência foi conduzindo à outra e, sinceramente, ainda não sei até onde esses caminhos irão me levar ou quais espaços educacionais ainda irei desbravar. O que sei é que me identifiquei profundamente tanto com a escrita literária quanto com a arte da fala. Atualmente, já estou no processo de criação da minha terceira obra literária e amadurecendo ideias para uma quarta publicação. Acredito profundamente na transformação social por meio da educação. Também acredito que não há possibilidade de construirmos uma sociedade verdadeiramente democrática enquanto o racismo continuar existindo. Como dizia Lélia Gonzalez, não basta dizer que não somos racistas; é preciso ser antirracista. E, para mim, ser antirracista é utilizar as ferramentas que temos para combater o racismo. Eu encontrei minhas ferramentas na educação, na literatura e na palavra. Meu maior sonho é que um dia nenhuma criança preta seja hostilizada dentro da escola por causa da cor da sua pele. Sonho com o tempo em que crianças negras não precisem sobreviver ao racismo para existir plenamente nos espaços educativos. Sonho com uma sociedade em que, ao ouvirem que o Brasil já teve uma estrutura racista, as futuras gerações respondam com espanto, como quem olha para algo extremamente ultrapassado e inconcebível. Sou profundamente grata a todas as pessoas que abriram espaços para minha voz, acolheram meu trabalho e compreenderam a importância dessa luta. Também admiro todos aqueles que reconhecem o racismo estrutural e, de alguma forma, contribuem para combatê-lo cotidianamente. Hoje dou mais um passo nessa trajetória com a criação do meu site, que certamente será mais uma ferramenta para ampliar minha voz, compartilhar conhecimento, promover reflexão e fortalecer a esperança na construção de uma sociedade verdadeiramente justa, igualitária e humana.
MEUS ARTIGOS
A Construção da Identidade
na Educação Infantil
O trabalho percorre os caminhos que esclarecem como a identidade se constrói e problematiza a ausência das práticas pedagógicas que ajudam a promover essa construção de forma real. Inicia-se pela reorganização da rotina, inserindo o uso de literaturas que contribuam para afirmação da identidade da criança negra, valorizando as características pessoais de cada uma. Apresenta também situações didáticas que favorecem a reconstrução da identidade das crianças. Ao propor este trabalho com um grupo de alunos da educação infantil na rede municipal de Osasco, buscamos trabalhar em prol do resgate da autoestima das crianças afrodescendentes.
Empoderamento Mirim
Entendo a escola como um espaço social e transformador, portanto, para que a criança negra construa a sua identidade é preciso ajudá-la a olhar para si, para seu corpo, seu cabelo e sua cor com positividade e (empoderamento); justificar a aplicabilidade desse projeto é uma iniciativa de plantar mais uma semente dentre tantas em combate a discriminação e contribuir para a (superação); (eliminação) do racismo em nossa sociedade, através do desenvolvimento desse projeto com propostas que promova uma (educação antirracista ) de modo a desenvolver o empoderamento nas crianças negras desde a infância tornando nossa sociedade mais igual e tolerante considerando suas características e aceitando-as como belas e únicas.